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Em minha vida, sempre senti uma necessidade profunda de dar clareza, luz, às minhas ideias. Algo que me ajuda a “pensar melhor” e que acho que poderia te ajudar também, é tentar manter claro e consistente o significado que dou às palavras. Além disso, usá-las de maneira coerente.

Atribuir significado cuidadoso às palavras que usamos no dia a dia, para nós mesmos, e o uso consistente e intencional desses significados, reduz, pelo menos um pouco, a confusão entre o que queremos expressar e o que expressamos. Isso é importante para qualquer um que nos ouça, incluindo a nós mesmos.

Deixa eu te dar alguns exemplos bem práticos. Começando por duas palavras que são fundamentais para muita coisa que faço, incluindo o meu trabalho: desorganização e bagunça.

No dia a dia, as pessoas parecem escolher entre “desorganização” ou “bagunça” sem pensar muito em seus significados reais. Duas palavras que dizem a mesma coisa é um desperdício, não acha? Um vocabulário que expressa pouco só é útil para quem tem pouco a dizer.

Desorganização trata da não definição de um lugar para as coisas, enquanto bagunça se refere à distância que as coisas estão do lugar que foi definido para elas.

Outras duas palavras fundamentais, que refletem conceitos indispensáveis para mim, são “desejo” e “vontade”.

As pessoas também parecem pensar em desejo e vontade como expressões de um mesmo conceito. Mas, aqui também há uma oportunidade para clarificar o que pensamos e o que expressamos.

Desejo sempre trata daquilo que falta. Por exemplo, quando o corpo tem falta de água, nasce o desejo de água, nasce a sede. Consequentemente, o desejo é sempre produto da necessidade, da ausência. Por outro lado, a vontade é a expressão do pensamento racional, é a escolha.

No caso do desejo, ele desaparece quando o ausente se faz presente. Sempre que aquilo que falta deixa de faltar, o desejo deixa de existir. Por outro lado, a vontade, por ser uma escolha, é persistente, mesmo com a presença do escolhido.

Desejo e vontade são duas formas diferentes de querer. O desejo pode apontar para uma direção, a vontade para outra.

Uma pessoa só é de fato livre, liberta, quando consegue tomar uma decisão que não está alinhada aos seus desejos, ao que falta. A “liberdade” é, em última instância, a expressão da vontade, da escolha também por aquilo que já temos ou pela aceitação do que nos falta.

Essa diferenciação entre vontade e desejo funciona como fundamento para o entendimento do pensamento ético e para a diferenciação de dois outros conceitos: “virtude” e “vício”.

A virtude acontece pela escolha racional, ou seja, pela vontade de fazer algo que encaminha para o bom, para o bem. Já o vício é o exercício da vontade que encaminha para aquilo que não é bom, ou ainda, pela abdicação das vontades em favor da sucumbência aos desejos.

Ao desejoso, seguir cegamente seus desejos pode conduzir para o que não é bom, ou seja, para algo que é potencialmente ruim, e é exatamente aí que nasce o comportamento não ético. A “ética” é o exercício pertinentemente bom da vontade.

Veja, o desejo é naturalmente “egoísta” pois se concentra no que me falta. A vontade pode ser potencialmente “altruísta”, porque pode se concentrar naquilo que falta para o outro.

Aliás, falando do “eu” e do “outro”, sobre o que falta e o que se necessita, sobre o que é desejo e o que é vontade, sobre a busca pelo bom, faz sentido a um cristão, como eu, pensar em Cristo.

Cristo, que ensinou sobre Ágape, mostrou que a virtude acontece quando deslocamos nosso “centro de realização” de nós mesmos para o outro. O amor cristão, conforme ensinado por Jesus, é a prática deliberada da vida virtuosa, ou seja, do exercício organizado da vontade em direção ao bom, não necessariamente naquilo que nos falta, mas no que é necessário para o outro. Aliás, é na busca de dar ao outro o que lhe falta, ajudando-os a mitigar a inclinação ao desejo, que identificamos o que tem valor para nós e o que deveria motivar nossas vontades.

Cristo, em seus ensinamentos, determinou uma forma de organização à vida. Ele colocou desejo e vontade em lugares bem definidos, estabeleceu critérios claros. A vida cristã é, em essência, viver de acordo com essa organização, evitando a bagunça.

Palavras e significados. Busca por, mais que conhecer, “entender. É do entendimento que nasce a esperança da prática para a vida com “sabedoria”.

Eu conheço. Eu entendo. Eu sei. Pelo menos, isso é o que eu desejo.

Sabedoria! A prática deliberada de nossas vontades, pela busca consciente do significado e do real valor das coisas, de tudo aquilo que conhecemos.

A vida de vontades boas, centrada nos outros, é expressão da busca daquele que deseja ser sábio, mesmo entendendo que essa busca nunca será completa. A sabedoria, por mais abundante, nos falta. Eis aqui um exemplo onde desejo deveria se alinhar às vontades.

Na aceitação da fatalidade de nossas nem sempre boas escolhas e da incapacidade de cultivar as boas vontades, frente aos nem sempre nobres desejos, é que nasce a necessidade do “Conselho” Divino e na “Fortaleza” Daquele que nos vigia, mas não pune.

Por sucumbirmos ao desejo, precisamos da “Misericórdia”. Pela ingenuidade das nossas vontades, devemos ser desejosos (reconhecer que nos falta) de “Graça”. Daí a demanda pelo “Temor” (que não é o mesmo que medo)

Graça, em tempo, é sobre ter mais do que merecemos. Misericórdia é sobre sermos menos afligidos (ou castigados) do que mereceríamos.

Desorganização, bagunça. Vontade, desejo. Virtude, vício. Ética!

Graça. Misericórida.

Conhecimento! Entendimento! Sabedoria! Conselho! Fortaleza! Temor!

Palavras. Palavras.

Na verdade, bem mais que palavras.

26/06/2024
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