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Outro dia, estava conversando com minha sobrinha. Recém-batizada, ela ainda se debatia com o entendimento, ou a falta dele, que existe no meio religioso. Ela reclamava da postura de algumas pessoas que congregavam com ela, criticando-a por coisas do passado.

Eu disse a ela que sua postura deveria ser de gratidão genuína. Afinal, que honra receber repreensão de gente que acha ou entende que pode falar em nome de Deus! Como essas pessoas têm coragem de julgar, contrariando o próprio livro de Tiago, que fala claramente sobre a necessidade de controlar a língua? Tiago adverte que a fé sem ações é morta. A fé professada apenas em palavras não é, como ensina Tiago, verdadeira nem cristã.

Para ilustrar meu ponto, contei a ela sobre alguns personagens bíblicos que também enfrentaram julgamentos e cometeram erros. Saul sucumbiu ao ciúme de Davi. Davi, que parecia fiel a Deus, falhou ao se envolver com Bate-Seba. Sansão pecou pela vaidade, e Salomão, conhecido por sua sabedoria, acabou seguindo deuses estrangeiros. O apóstolo Paulo, antes conhecido como Saulo, perseguia cristãos. Até mesmo o profeta Elias, que fez cair fogo do céu contra centenas de “sacerdotes pagãos”, fugiu com medo de uma rainha.

Esses exemplos não apenas mostram a imperfeição humana, mas também a capacidade de Deus em realizar sua obra perfeita através de seres falhos. Assim como os heróis bíblicos, também nós não somos “totalmente bons”. Erramos e dependemos da Graça e Misericórdia divina. Essas histórias mostram que, apesar de nossas falhas, Deus pode nos usar para cumprir seus propósitos.

Minha sobrinha também questionou a autenticidade de algumas manifestações, como o “falar em línguas”. Será que todos realmente estão falando em línguas ou estão apenas fingindo? Eu disse que, na prática, não faz diferença. É possível que algumas pessoas estejam fingindo e, nelas, a manifestação seja falsa. Mas, para quem presencia, pode ouvir algo que conecta com o Espírito Santo. Essa é uma das belezas de Deus: ressignificar o errado para cumprir um propósito certo.

Outro ponto interessante é a obsessão quase doentia de algumas pessoas em “seguir a palavra”. Vale sempre o que está na Bíblia e ela é a fonte segura da verdade. Pois bem, o problema é que a Bíblia é entendida através de nossos filtros ou através dos filtros dos outros. Ter a Bíblia como referência é indiscutível, mas o extremo que sempre leva ao engano conduz a algo mais do que condenado: a idolatria.

Feitos à imagem do Criador, somos também nós criadores, ou pelo menos co-criadores de nossas realidades. Tal como Deus, deveríamos buscar ressignificar o que é ruim em coisas boas, praticando a tolerância, sempre com amor, mas sem esquecer a justiça.

Voltando à conversa com minha sobrinha, expliquei que depender de Deus, não de maneira funcional, mas emocional, não é sinal de fraqueza, mas uma prova de fé e humildade. É na nossa imperfeição que a Graça se torna visível e poderosa, mostrando que a verdadeira força não está em nós, mas na obra que Deus realiza através de nós. O mesmo ocorre com relação à vida das pessoas ao nosso redor. Sempre conhecemos apenas um recorte. O juízo, então, é sempre falho. Isso é ensinado na história de Jó. Os amigos de Jó tentavam convencê-lo de que, se coisas ruins estavam acontecendo, era porque ele era falho. O que há de diferente nesse comportamento daquele que encontramos em algumas igrejas? E que grande lição Deus ensina a Jó, evidenciando sua falta (e, sem dúvidas, a nossa) de compreensão e sua capacidade limitada de entender o divino.

Recentemente, dúvidas semelhantes às da minha sobrinha surgiram de outras pessoas que também gosto. Honestamente, sinto-me honrado, pois, mesmo sob toda minha imperfeição, ou talvez exatamente por causa dela, sou instrumento para responder. Sei que posso estar interpretando as coisas de forma errada. Mas minha fé em Deus me faz esperar que minha intenção genuína faça com que Ele leve o certo para quem ouve, mesmo quando o que eu falo não está correto.

O crente não deve fazer as coisas por temor (no sentido de ter medo) de Deus, mas por Temor (respeito e reconhecimento) Dele. Cada esforço, se houver, deve ser recebido como uma prática de amor a Deus e, também, do Amor Dele por nós. Ele não depende de nós, não precisa de nós. O que fazemos por Ele é uma oportunidade para nós, nunca para Ele.

Deus, definitvamente, escreve certo por linhas tortas.

Sabedoria e entendimento. Não há como desenvolver Sabedoria, que é musculatura, sem buscar o Entendimento, que é relação. Deus dá a Sabedoria divina em abundância a quem solicita. Mas, isso não implica na falta de necessidade de que tomemos posse (aliás, foi exatamente assim com a Terra Prometida).

13/07/2024

Imagine um mundo onde cada ato de transparência fosse reconhecido e valorizado. Um lugar onde ser honesto e aberto fosse fácil de demonstrar. Infelizmente, o mundo real é mais complicado. Aqui, muitas vezes, encontramos um comportamento cínico que parece mais aceitável. Mas por quê?

Vamos começar com uma cena cotidiana. João, um funcionário dedicado, decide compartilhar os desafios que enfrenta no trabalho. Ele acredita que ser transparente pode ajudar a resolver problemas e melhorar o ambiente. No entanto, seus colegas recebem suas palavras com desconfiança. “Por que ele está dizendo isso?”, pensam. “Qual é o verdadeiro motivo por trás de suas palavras?”

Essa recepção fria ilustra um conceito filosófico conhecido como assimetria. Em filosofia, assimetria refere-se à desigualdade na facilidade de demonstrar certos conceitos. Por exemplo, provar a verdade beira o impossível para as coisas do dia a dia. Precisamos de muitas evidências para demonstrar que algo parece ser verdade. Mas, para desmentir, basta um único exemplo contrário. Provar a mentira demanda menos esforço.

Vamos aplicar essa ideia às virtudes. Demonstrar uma virtude, como a transparência, é muito difícil. Requer consistência, honestidade e disposição para se expor. Já o comportamento cínico, que implica desconfiança nas intenções dos outros, é muito mais fácil. Basta olhar com suspeita, questionar a sinceridade alheia e pronto. É como se a balança sempre pendesse a favor da dúvida.

Pense na afirmação “todos os cisnes são brancos”. Para provar isso, precisaríamos ver todos os cisnes do mundo. Mas, para desmentir, basta encontrar um cisne negro. Da mesma forma, ser consistentemente transparente é uma tarefa árdua, enquanto ser cínico é quase automático.

Essa assimetria faz com que o cinismo se torne mais comum. E, ao aceitar o cinismo, enfrentamos um problema: ele mina nossos relacionamentos. Quando a desconfiança prevalece, a comunicação se torna superficial, as intenções são mal interpretadas e as conexões humanas se enfraquecem.

Voltemos a João. Seu desejo de ser transparente não só complicou sua relação com os colegas, mas também mostrou o quanto é difícil sustentar virtudes em um ambiente predisposto ao cinismo. Intenções corretas sempre serão impossíveis de provar, mas, por outro lado, um deslize serve para provar a “impureza não manifesta”. Isso nos leva a refletir: se o cinismo é favorecido pela assimetria, como podemos cultivar a transparência?

Aqui entra um elemento teológico interessante. Cristo pregava a tolerância e a compreensão, reconhecendo empiricamente a assimetria presente nas relações humanas. Ele sabia que julgar os outros rapidamente e de forma absoluta favorece a desconfiança e o cinismo. Cristo nos ensinou a olhar além das falhas aparentes e a buscar a bondade interior, um verdadeiro antídoto contra a assimetria que leva ao cinismo.

Além disso, devemos fugir de visões absolutas. Visões absolutas sempre favorecem a assimetria que tende ao cinismo. Em vez disso, precisamos adotar uma abordagem mais equilibrada e compreensiva, reconhecendo que todos têm falhas e que a verdade pode ser complexa e multifacetada.

Podemos ver essa assimetria em outras áreas. No desenvolvimento de software, testes só provam que um programa tem bugs, nunca que não tem. Motivo? Assimetria. Em segurança, é impossível demonstrar que um sistema é absolutamente seguro. Uma única brecha mostra vulnerabilidade. Assimetria.

A resposta talvez esteja em criar um contexto onde a abertura e a honestidade sejam encorajadas e valorizadas. Onde os esforços para ser transparente sejam reconhecidos e onde erros sejam vistos como oportunidades de aprendizado, não como falhas de caráter. Será que estamos dispostos a fazer esse esforço em nosso dia a dia?

Então, por que as pessoas adotam um comportamento mais cínico do que transparente? Porque é mais fácil. Porque a assimetria das virtudes favorece o caminho da desconfiança. E porque reconhecer a bondade, a sinceridade e a validade de uma iniciativa requer um esforço constante e deliberado.

Se queremos um mundo onde a transparência prevaleça, precisamos estar dispostos a fazer esse esforço. Precisamos questionar nossas suposições, dar o benefício da dúvida e, acima de tudo, valorizar a abertura em nossas interações diárias. Só assim poderemos equilibrar a balança da assimetria e construir relações mais fortes e genuínas. Vamos fazer esse esforço juntos?

11/07/2024

Outro dia, fiz uma afirmação que gerou debates:

A criação só termina quando a criatura não depende mais do criador.

Houve quem entendeu a essência do que eu queria dizer, mas também houve quem criticou a premissa. A principal crítica foi que, ao afirmar isso, eu estaria sugerindo que podemos ou devemos nos considerar independentes de Deus, nosso criador.

Gostaria de esclarecer que, ao fazer essa afirmação, não estou negando nossa dependência de Deus. Pelo contrário, acredito firmemente que somos, e sempre seremos, dependentes Dele. No entanto, é crucial entender que essa dependência não é funcional, mas sim afetiva.

Na minha afirmação, falava em dependência funcional. Essa, talvez tenhamos do Criador, penso que não. Seria uma dependência da qual não teríamos como escapar. Ele não é assim!

A dependência funcional implicaria que não podemos agir, pensar ou existir sem uma intervenção direta e contínua de Deus em cada aspecto de nossas vidas. Isso transformaria nossa existência em algo mecanicista, sem espaço para a autonomia e a liberdade que nos foram concedidas. Porém, mesmo essa liberdade é um presente de Deus, subordinado à Sua vontade soberana.

Por outro lado, a dependência afetiva destaca a profundidade do nosso vínculo emocional e espiritual com Deus. É essa conexão que nos nutre, guia e dá sentido à nossa existência. Mesmo quando exercemos nossa liberdade, tomamos decisões e seguimos nossos caminhos, fazemos isso sob a luz da nossa relação com Deus, uma relação de amor, respeito e gratidão.

O Deus em que acredito cumpre suas promessas e nos criou com o direito ao livre arbítrio. Mas, que liberdade seria essa se não tivéssemos a opção de nos afastar Dele? Temos essa opção. Obviamente, não penso que essa seja uma boa escolha. Ainda assim, é uma possibilidade real, concedida para que nossa escolha por Deus seja genuína e não forçada. No entanto, acredito que a graça de Deus nos sustenta e guia, garantindo que aqueles que Ele escolheu perseverem na fé.

Há muito mais do que podemos entender. Deus criou o mundo para que fosse perfeito e contínuo. Tanto que se deu ao direito ao descanso no sétimo dia.

No sétimo dia Deus já havia concluído a obra que realizara, e nesse dia descansou de toda a sua obra. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que realizara na criação

Gênesis 2:2-3

Vivemos melhor quando vivemos subordinados à vontade Dele. Nesse aspecto, somos dependentes de tudo que vem Dele, que sempre foi, é e será. Mas, ao mesmo tempo, essa dependência não está nem poderia estar associada à ideia de troca.

Eu me consideraria e me considero dependente de Deus mesmo se tivesse a certeza de que não precisaria funcionalmente Dele para nada. Essa dependência é uma expressão do amor e da reverência que sentimos por Ele, e não uma mera necessidade prática.

Por exemplo, imagine um filho que ama e respeita profundamente seu pai. Mesmo quando esse filho cresce e se torna capaz de cuidar de si mesmo, ele ainda valoriza a orientação e o apoio emocional do pai. O vínculo que compartilham não é baseado em necessidades práticas, mas em um amor e respeito mútuos. Assim é a nossa relação com Deus.

Que sentido teria o amor de um filho por seu pai se fosse apenas por necessidade? Não é o verdadeiro amor aquele que escolhe permanecer, mesmo quando poderia partir? Portanto, a criação se torna completa não quando nos tornamos funcionais e mecanicamente independentes de Deus, mas quando alcançamos a maturidade espiritual para reconhecer e valorizar essa dependência afetiva. É nesse ponto que encontramos nossa verdadeira liberdade e plenitude como criaturas de um Criador amoroso.

Como disse Santo Agostinho, “Nos fizeste para Ti, e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em Ti”.

09/07/2024

Acredito que o diabo não impõe dificuldades àqueles que já estão alinhados com os seus propósitos. Se uma pessoa está se prejudicando sozinha, ela está, de certa forma, facilitando o trabalho do diabo, que não precisa intervir diretamente. A ausência de sinais visíveis de atuação do diabo na vida de alguém pode, paradoxalmente, ser um indicativo de que essa pessoa está seguindo uma direção que ele aprova. Quando não vemos obstáculos ou interferências malignas, pode ser porque estamos trilhando um caminho que já está em conformidade com os objetivos dele.

Por outro lado, a atuação do diabo tende a ser mais percebida quando alguém está indo “de encontro” ao que ele quer. Quando estamos seguindo um caminho moralmente correto, batemos de frente com ele e suas influências se tornam mais evidentes. É neste confronto que sentimos suas tentativas de nos desviar do caminho certo, através de obstáculos e tentações que surgem em nossa jornada.

Para ilustrar ainda mais essa ideia, pensemos na seguinte situação: uma casa bagunçada, mas sem luz. No escuro, não temos uma percepção clara dos problemas ao nosso redor. Podemos até pensar que não há problemas, já que a falta de luz nos impede de ver a bagunça. Da mesma forma, a falta de percepção espiritual pode nos fazer acreditar que estamos bem, mesmo quando estamos imersos em problemas e comportamentos que nos prejudicam.

Por outro lado, ao colocar luz na situação, podemos ver problemas que sempre estiveram presentes, mas nunca estiveram visíveis. A clareza proporcionada pela luz revela a desordem e as falhas que antes eram ocultas. No entanto, se não formos cuidadosos, podemos cair na armadilha de pensar que o problema é a luz ou que foi ela que causou os problemas. Na verdade, a luz apenas nos permite ver a realidade como ela é, nos dando a oportunidade de corrigir o que está errado.

Ganhando essa consciência situacional através da luz, temos a oportunidade de resolver problemas antes que eles ganhem um vulto maior. Embora inicialmente desagradável, essa revelação é uma chance valiosa para fazer melhor, corrigir nossos caminhos e evitar que pequenas falhas se tornem grandes obstáculos no futuro. É através dessa luz que podemos verdadeiramente melhorar e crescer, enfrentando de frente os desafios que antes estavam ocultos.

Deus, ao criar o mundo, começou, logo no primeiro dia, criando a luz. As trevas, antes, cobriam a face do abismo. Essa é uma alusão interessante de que é no desconhecimento, naquilo que não se vê, que reside o perigo. O perigoso, mas evidente, deixa de ser uma ameaça disfarçada e passa a ser um convite ao risco. Assim, a criação da luz representa a importância de dissipar as trevas do desconhecimento para revelar e lidar com os perigos que se escondem na escuridão.

Eu acredito em Deus. Não percebo no diabo uma oposição a Deus, mas ao homem. Seria desproporcional colocar qualquer coisa no status de oposição a Deus. O diabo é nosso inimigo. A falta de percepção, o desconhecido, é uma ferramenta nas mãos do maligno. Como diz o sábio, devemos nos alegrar nas tribulações, pois são elas que produzem a paciência, que resulta em experiência, e nos permite a esperança.

Essa conexão entre o espiritual e o mundano é necessária. Na minha empresa, por exemplo, é exatamente quando atento para alguns aspectos, observando indicadores, que percebo que algo não está bom. Parece que tudo ficou errado, mas, já estava. O que há de novo é a consciência e a chance de melhorar. Ao iluminar essas áreas, ganhamos a oportunidade de corrigir problemas e melhorar processos antes que se agravem.

Que tenhamos a coragem de buscar e aceitar a luz. Que entendamos que o inimigo que parece invencível a nós, é derrotado frente a Deus. Em resumo, reconhecer a influência do diabo em nossas vidas e buscar a luz de Deus nos capacita a enfrentar e superar os desafios ocultos. Que tenhamos sempre a coragem de iluminar nossos caminhos e confiar na vitória de Deus sobre todo o mal.

08/07/2024

Problemas, problemas! Quem não tem? Que graça teria a vida sem eles? Mas, aqui entre nós, seriam necessários tantos?

Vamos pensar juntos…

Todos os nossos problemas, os mais graves e os menos relevantes, resultam sempre da combinação de um fato objetivo da realidade e um “querer” – seja um desejo, vontade ou necessidade.

Problemas não são coisas que o mundo nos apresenta. São construções nossas, fruto de algo que está (ou não está) fora, combinado com algo que temos dentro.

Ou a realidade nos apresenta algo que não gostamos – que está, mas não deveria estar – ou explicita a ausência de algo que queremos, mas não encontramos.

Contas para pagar ou para receber, por exemplo, são problemas não por suas naturezas, mas por nossas expectativas em relação a elas. Como quaisquer coisas da realidade, do mundo tangível, não são nem boas nem ruins até serem combinadas com a forma como as percebemos.

Os problemas que enfrentamos são, irrefutavelmente, frutos de nossas escolhas. A existência deles é fruto de nossas percepções e dos nossos “quereres”.

Aliás, a forma que molda um problema é a mesma que molda uma oportunidade. São os nossos “quereres” que vão determinar a lente que usamos para perceber o mundo – “cor de rosa” para oportunidades ou “sombrias” para a desgraça.

É a maneira como interpretamos e reagimos aos fatos objetivos da realidade, junto com nossas necessidades, desejos e vontades, que define se enfrentamos problemas ou se vivemos oportunidades.

Então, como você escolhe ver o mundo hoje? Como uma série de problemas a serem resolvidos ou uma sequência de oportunidades a serem aproveitadas?

02/07/2024

Em minha vida, sempre senti uma necessidade profunda de dar clareza, luz, às minhas ideias. Algo que me ajuda a “pensar melhor” e que acho que poderia te ajudar também, é tentar manter claro e consistente o significado que dou às palavras. Além disso, usá-las de maneira coerente.

Atribuir significado cuidadoso às palavras que usamos no dia a dia, para nós mesmos, e o uso consistente e intencional desses significados, reduz, pelo menos um pouco, a confusão entre o que queremos expressar e o que expressamos. Isso é importante para qualquer um que nos ouça, incluindo a nós mesmos.

Deixa eu te dar alguns exemplos bem práticos. Começando por duas palavras que são fundamentais para muita coisa que faço, incluindo o meu trabalho: desorganização e bagunça.

No dia a dia, as pessoas parecem escolher entre “desorganização” ou “bagunça” sem pensar muito em seus significados reais. Duas palavras que dizem a mesma coisa é um desperdício, não acha? Um vocabulário que expressa pouco só é útil para quem tem pouco a dizer.

Desorganização trata da não definição de um lugar para as coisas, enquanto bagunça se refere à distância que as coisas estão do lugar que foi definido para elas.

Outras duas palavras fundamentais, que refletem conceitos indispensáveis para mim, são “desejo” e “vontade”.

As pessoas também parecem pensar em desejo e vontade como expressões de um mesmo conceito. Mas, aqui também há uma oportunidade para clarificar o que pensamos e o que expressamos.

Desejo sempre trata daquilo que falta. Por exemplo, quando o corpo tem falta de água, nasce o desejo de água, nasce a sede. Consequentemente, o desejo é sempre produto da necessidade, da ausência. Por outro lado, a vontade é a expressão do pensamento racional, é a escolha.

No caso do desejo, ele desaparece quando o ausente se faz presente. Sempre que aquilo que falta deixa de faltar, o desejo deixa de existir. Por outro lado, a vontade, por ser uma escolha, é persistente, mesmo com a presença do escolhido.

Desejo e vontade são duas formas diferentes de querer. O desejo pode apontar para uma direção, a vontade para outra.

Uma pessoa só é de fato livre, liberta, quando consegue tomar uma decisão que não está alinhada aos seus desejos, ao que falta. A “liberdade” é, em última instância, a expressão da vontade, da escolha também por aquilo que já temos ou pela aceitação do que nos falta.

Essa diferenciação entre vontade e desejo funciona como fundamento para o entendimento do pensamento ético e para a diferenciação de dois outros conceitos: “virtude” e “vício”.

A virtude acontece pela escolha racional, ou seja, pela vontade de fazer algo que encaminha para o bom, para o bem. Já o vício é o exercício da vontade que encaminha para aquilo que não é bom, ou ainda, pela abdicação das vontades em favor da sucumbência aos desejos.

Ao desejoso, seguir cegamente seus desejos pode conduzir para o que não é bom, ou seja, para algo que é potencialmente ruim, e é exatamente aí que nasce o comportamento não ético. A “ética” é o exercício pertinentemente bom da vontade.

Veja, o desejo é naturalmente “egoísta” pois se concentra no que me falta. A vontade pode ser potencialmente “altruísta”, porque pode se concentrar naquilo que falta para o outro.

Aliás, falando do “eu” e do “outro”, sobre o que falta e o que se necessita, sobre o que é desejo e o que é vontade, sobre a busca pelo bom, faz sentido a um cristão, como eu, pensar em Cristo.

Cristo, que ensinou sobre Ágape, mostrou que a virtude acontece quando deslocamos nosso “centro de realização” de nós mesmos para o outro. O amor cristão, conforme ensinado por Jesus, é a prática deliberada da vida virtuosa, ou seja, do exercício organizado da vontade em direção ao bom, não necessariamente naquilo que nos falta, mas no que é necessário para o outro. Aliás, é na busca de dar ao outro o que lhe falta, ajudando-os a mitigar a inclinação ao desejo, que identificamos o que tem valor para nós e o que deveria motivar nossas vontades.

Cristo, em seus ensinamentos, determinou uma forma de organização à vida. Ele colocou desejo e vontade em lugares bem definidos, estabeleceu critérios claros. A vida cristã é, em essência, viver de acordo com essa organização, evitando a bagunça.

Palavras e significados. Busca por, mais que conhecer, “entender. É do entendimento que nasce a esperança da prática para a vida com “sabedoria”.

Eu conheço. Eu entendo. Eu sei. Pelo menos, isso é o que eu desejo.

Sabedoria! A prática deliberada de nossas vontades, pela busca consciente do significado e do real valor das coisas, de tudo aquilo que conhecemos.

A vida de vontades boas, centrada nos outros, é expressão da busca daquele que deseja ser sábio, mesmo entendendo que essa busca nunca será completa. A sabedoria, por mais abundante, nos falta. Eis aqui um exemplo onde desejo deveria se alinhar às vontades.

Na aceitação da fatalidade de nossas nem sempre boas escolhas e da incapacidade de cultivar as boas vontades, frente aos nem sempre nobres desejos, é que nasce a necessidade do “Conselho” Divino e na “Fortaleza” Daquele que nos vigia, mas não pune.

Por sucumbirmos ao desejo, precisamos da “Misericórdia”. Pela ingenuidade das nossas vontades, devemos ser desejosos (reconhecer que nos falta) de “Graça”. Daí a demanda pelo “Temor” (que não é o mesmo que medo)

Graça, em tempo, é sobre ter mais do que merecemos. Misericórdia é sobre sermos menos afligidos (ou castigados) do que mereceríamos.

Desorganização, bagunça. Vontade, desejo. Virtude, vício. Ética!

Graça. Misericórida.

Conhecimento! Entendimento! Sabedoria! Conselho! Fortaleza! Temor!

Palavras. Palavras.

Na verdade, bem mais que palavras.

26/06/2024